Eduardo Gerhardt Martins Advogados

Créditos de PIS e Cofins na CBS: o que a Receita Federal esclareceu

Os saldos credores de PIS e Cofins não morrem com a chegada da CBS. A Receita Federal explicou como aproveitá-los e, no mesmo movimento, acendeu um alerta de R$ 44 bilhões.

Há cerca de R$ 140 bilhões em créditos de PIS e Cofins parados nas escriturações de aproximadamente 100 mil empresas brasileiras. É dinheiro reconhecido, que pertence aos contribuintes, e que estava cercado de uma dúvida simples e cara: o que acontece com esses créditos quando o PIS e a Cofins deixarem de existir? Em 3 de junho de 2026, a Receita Federal respondeu.

O que a Receita Federal anunciou

A partir de 1º de janeiro de 2027, o PIS/Pasep e a Cofins serão extintos e substituídos pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), dentro do calendário da Reforma Tributária. A preocupação das empresas era previsível: quem encerrasse 2026 com crédito acumulado poderia simplesmente perder esse valor na virada do sistema.

A orientação da Receita afastou esse risco. Os saldos credores permanecem válidos mesmo depois da extinção das contribuições. Não há perda automática nem prazo-relâmpago para “usar ou perder”. A regra vale tanto para os créditos já existentes quanto para os apropriados até a transição.

Vale lembrar onde estamos no calendário. 2026 é um ano de teste: a CBS é cobrada a 0,9% e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) a 0,1%, valores abatidos do PIS, da Cofins e do ICMS devidos no mesmo período. Na prática, as empresas já rodam os dois sistemas em paralelo para ajustar processos antes que a CBS valha de verdade.

Como os créditos poderão ser usados

Pela Lei Complementar n. 214/2025, o contribuinte que chegar a 2027 com saldo credor de PIS e Cofins terá três caminhos:

  • compensar débitos da própria CBS;
  • compensar outros tributos federais administrados pela Receita Federal;
  • pedir o ressarcimento em dinheiro.

Tudo isso continua sendo feito pelo PER/DCOMP Web, o mesmo sistema de hoje, que ganhará uma funcionalidade específica para esses créditos. Há aqui um detalhe operacional que merece atenção: o sistema vai recuperar de forma automática os saldos informados na Escrituração Fiscal Digital das Contribuições (EFD-Contribuições) de dezembro de 2026. Em outras palavras, a foto tirada em dezembro de 2026 é que vai alimentar o aproveitamento dos créditos no novo regime.

Por que isso importa do ponto de vista jurídico

O crédito de PIS e Cofins não é um favor do Fisco. Ele nasce da não cumulatividade dessas contribuições: a empresa se apropria do tributo que incidiu nas etapas anteriores da cadeia para não pagar imposto sobre imposto. Uma vez constituído conforme a lei, o crédito integra o patrimônio do contribuinte. Trocar o nome do tributo não apaga esse direito.

Por isso a orientação da Receita tem um valor que vai além do operacional. Ela dá concretude à segurança jurídica e à proteção da confiança legítima: quem recolheu e escriturou corretamente sob o regime do PIS e da Cofins não pode ser surpreendido com o desaparecimento de um direito já incorporado. A própria Lei Complementar n. 214/2025 cuidou disso no art. 378, que disciplina a transição desses créditos para a CBS.

Há também uma mudança de lógica que o empresário precisa entender. O PIS e a Cofins funcionam, em boa parte, no modelo de “base sobre base”. A CBS adota o crédito financeiro amplo, mais próximo do “imposto sobre imposto” dos IVAs adotados pelo mundo. São lógicas distintas de creditamento, e essa diferença vai exigir atenção na forma como cada empresa apura e aproveita seus créditos daqui para frente.

Um ponto continua em aberto, e seria desonesto fingir que não. A Lei Complementar n. 214/2025 não condicionou o uso desses créditos a qualquer habilitação prévia. O risco que parte dos especialistas aponta é outro: que o procedimento operacional, sobretudo a recuperação automática a partir da EFD-Contribuições de dezembro de 2026, acabe funcionando, na prática, como um filtro do que pode ou não ser aproveitado. Se a empresa não estiver naquela escrituração com os números certos, pode ter trabalho para reaver o que a lei lhe garante. O teste real virá em 2027, quando esses saldos começarem a ser usados em escala.

O alerta de R$ 44 bilhões

No mesmo comunicado, a Receita informou ter identificado divergências em cerca de 12 mil empresas, somando aproximadamente R$ 44 bilhões em créditos. Esses contribuintes serão orientados a regularizar os valores pela própria EFD-Contribuições.

O recado prático é direto. A Receita assumiu o papel de facilitar a transição, mas deixou claro que a responsabilidade pela apuração e pelo registro corretos dos créditos continua sendo do contribuinte. Como a foto que vale é a de dezembro de 2026, qualquer inconsistência ou erro nessa escrituração pode comprometer o reconhecimento do crédito lá na frente, com efeito direto no caixa da empresa.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Cerca de 70% das empresas têm saldos abaixo de R$ 100 mil, e perto de 90% ficam abaixo de R$ 1 milhão. O grosso dos R$ 140 bilhões está concentrado, portanto, em um número pequeno de contribuintes, justamente os que têm mais a perder se a revisão for deixada para a última hora.

O que fazer agora

A janela de ação não é 2027. É agora, antes do fechamento da EFD-Contribuições de dezembro de 2026. Uma revisão preventiva dos créditos acumulados permite conferir se os saldos escriturados refletem o que de fato foi apurado, corrigir divergências antes que virem litígio ou perda de crédito e planejar a melhor forma de uso, seja compensação, seja ressarcimento, conforme o fluxo de caixa da empresa.

Comentário

Vejo a orientação como uma boa notícia, e das necessárias. Ela reduz uma insegurança que vinha tirando o sono de muita empresa e dá previsibilidade a quem precisa decidir agora. Mas guardo uma dose de ceticismo saudável. Quando um direito assegurado sem condições pela lei passa a depender de um procedimento e de uma escrituração específica, o procedimento tende a virar a verdadeira régua. A Lei Complementar n. 214/2025 prometeu créditos garantidos. Caberá à prática de 2027 mostrar se a promessa se cumpre sem barreiras disfarçadas de operação.

Para o empresário, a leitura é simples. Quem tratar dezembro de 2026 como um prazo qualquer vai descobrir, tarde, que era um prazo decisivo. E quem tem saldo relevante de PIS e Cofins não deveria esperar a poeira baixar: o momento de revisar é antes da foto, não depois.

Se a sua empresa acumulou créditos de PIS e Cofins, este é o momento de revisá-los, com calma e método, antes do fechamento de dezembro de 2026. Uma análise preventiva pode ser a diferença entre aproveitar integralmente o que é seu e ter de reaver o valor na Justiça. Estou à disposição para essa conversa.

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